O companheiro
Terra pequenina, de sabor bíblico, com casas de pedra solta e com quatro carvalhas também bíblicas, à entrada, mas já sem a presença de ovelhas bem tratadas que se avistavam noutros tempos, o Companheiro guarda uma tradição muito interessante e um monumento a perpetuá-la.
Situado em pleno vale do Coja, na sua margem esquerda, lá está o Companheiro. Administrativamente, é do concelho de Sátão, onde vão pagar as contribuições, mas religiosamente, está ligado à freguesia de Sezures, concelho de Penalva do Castelo, onde são baptizadas as crianças e sepultados os que morrem.Causas? Inquirimos. “É que, noutros tempos, não havia ponte, nem pontão, nem alpondras sobre o Coja e, por vezes, nas grandes invernias, se adregava morrer alguém, tinha de esperar oito dias ou os que fossem... E pela serra os caminhos eram muito maus. Daí o termo-nos encostado a Sezures. Mas isto é o que se conta, pois já foi há muitos anos”. No cadastro da população do reino de 1527, no lugar do companheiro havia apenas um morador. Neste primeiro ano do século XXI, os dois últimos casais hesitam perante a perspectiva de passarem lá mais um inverno.
A estória do seu brasão
Diz a tradição que passou por aqui um rei, quando andava à caça, e perdendo-se ao cair da noite, foi bater à porta duma casa onde estava gente e se sentia o afago duma lareira.Mandaram-no entrar, trataram-no o melhor que a sua pobreza lhe consentia e, no fim, quiseram que o hóspede real, em colchão de feno a cheirar aos campos, pudesse recompor-se da fadiga do dia anterior e conciliar o sono sem saudades demasiadas dos colchões de plumas do seu palácio real.
No dia seguinte, muito penhorado, o rei partiu. E passado algum tempo, uma comitiva apareceu e bateu à mesma porta, trazendo, numa pedra trabalhada, um brasão com que o rei quis distinguir e honrar aqueles que tão generosamente o tinham recebido, instalando-o nas pedras soltas da parede da casa onde pernoitou. A pedra ainda existe, embora esteja colocada numa casa porventura mais recente que aquela onde originalmente teria sido colocada. Mais ou menos quadrada, medindo 60 por 60, tem no frontal a imagem esculpida dum cavaleiro montado no seu cavalo. E, por baixo, bem legível ainda hoje, a data: “1689”.Ora em 1689 reinava em Portugal o rei D. Pedro II. Seria mesmo o rei ou algum principe seu irmão? Ou algum fidalgo? A pedra é “tufa” e mostra-se, infelizmente, picada. Dizem que, em tempos que já lá vão, num certo domingo, enquanto toda a gente se encontrava em Sezures, na festa de Nossa Senhora da Graça, por malvadez ou idiotice, um valdevinos foi lá e picou a pedra, deixando-a como agora está. Faz-nos bem ir ao Companheiro.

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